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Lucro sobe puxado pelo financeiro, mas operacional não decepciona

As empresas de capital aberto conseguiram mais uma vez passar no teste de resistência a crises. Apesar da economia brasileira patinar nos últimos anos, os ajustes em processos internos garantiram um aumento da receita acima da inflação no segundo trimestre de 2019.


O resultado pode ser visto de duas maneiras: a parte operacional, que ficou praticamente no zero a zero, e a parte financeira, que teve o impulso de um conjunto de fatores favoráveis, como câmbio, queda de juros e créditos tributários.


A adoção da norma que alterou a contabilização do leasing, que fez com que algumas empresas reajustassem para menos a base de dados do segundo trimestre de 2018, também favoreceu o lucro líquido deste ano.


O crescimento da última linha, segundo levantamento feito pelo Valor Data com 277 empresas não financeiras, foi de mais de cinco vezes, de R$ 4,7 bilhões para R$ 24,4 bilhões. A amostra não inclui Petrobras e Eletrobras, para evitar distorção nos números.


A receita líquida teve um avanço de 11,2% no período de abril a junho, acima da inflação do período, portanto. Custos e despesas também subiram consideravelmente, reduzindo o ganho operacional para cerca de 2%, que, ainda assim, pode ser considerado satisfatório no cenário atual.


O ganho operacional das empresas vem se sustentando há bastante tempo, diz o coordenador do Valor Data, William Volpato. "As empresas tiveram um resultado robusto, com crescimento real sobre o mesmo período do ano passado."


O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês), uma medida fora do balanço muito usada pelo mercado, teve expansão mais robusta, de 10,9%, exatamente porque desconsidera itens da despesa que pesam sobre o lucro operacional contábil.


"A história é interessante. Apesar das revisões para baixo [do PIB], os resultados continuam surpreendendo de forma positiva", comentou David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America (BofA) Merrill Lynch, destacando que os balanços foram beneficiados por queda da despesa financeira com juros, corte de custos e ganho de participação de mercado.


No período, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), indicador que mede a evolução da atividade do país, fechou em queda de 0,13% em relação ao primeiro trimestre, na série com ajuste sazonal, após recuo de 0,52% nos três primeiros meses do ano. O PIB do segundo trimestre deve ser divulgado pelo IBGE dia 29 de agosto.


Um exemplo da estratégia de ajustes internos é do Grupo Pão de Açúcar (GPA). Em relatório da administração sobre os resultados do segundo trimestre, o diretor-presidente Peter Estermann comenta que o crescimento da empresa foi marcado pela expansão orgânica, com avanço das vendas e aumento da rentabilidade. "O resultado das reformas e conversões de lojas contribuiu para a consistente progressão de vendas, com crescimento de dois dígitos, em linha com os objetivos de ajustes de portfólio."


Além do desempenho operacional, o resultado líquido das empresas foi marcado pela melhora do resultado financeiro. A despesa financeira líquida consolidada das 277 companhias analisadas caiu 62,5% na comparação anual.


A linha financeira foi influenciada por uma série de fatores no segundo trimestre, desde um câmbio mais favorável no período, passando por ganhos fiscais relativos ao direito da exclusão do ICMS da base de cálculo das contribuições ao PIS e Cofins. "Houve vários fatores. Não dá para traçar uma tendência para esse ponto", disse Volpato, do Valor Data.


O dólar Ptax no fim do segundo trimestre ficou em R$ 3,83 em junho de 2019, contra R$ 3,90 em março deste ano, um movimento que aliviou o peso sobre as dívidas em moeda estrangeiras


A melhora do cenário cambial ajudou a JBS a registar um recuo de 86% da despesa financeira líquida, de R$ 4,7 bilhões no período de abril a junho de 2018 para R$ 697,6 milhões em 2019, com uma variação cambial positiva de R$ 454,5 milhões, contra perdas de R$ 3,9 bilhões um ano antes.


A Gol também teve melhora do seu resultado financeiro com o câmbio, passando de perdas de R$ 1,3 bilhão um ano atrás para R$ 418,1 milhões no segundo trimestre de 2019. No informe de resultados, a empresa explica que a valorização de 1,7% do real ante o dólar gerou ganhos de R$ 170 milhões.


Já a Cemig foi umas das empresas beneficiadas pela decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de excluir o ICMS da base de cálculo do PIS e Cofins, de 2017. Muitas empresas reconheceram em seus balanços decisões de ações judiciais que resultaram na apuração de créditos fiscais.


No caso da companhia elétrica mineira, ela teve uma receita financeira líquida de R$ 1,9 bilhão, contra despesa de R$ 696,8 milhões em 2018, com atualização dos créditos de R$ 1,5 bilhão.


A alta de mais de 400% do lucro líquido das empresas na comparação anual deve, contudo, ser ponderada pela adoção da norma contábil IFRS 16, que alterou as regras para reconhecimento de contratos de arrendamentos.


Com a mudança contábil, algumas empresas ajustaram os números do segundo trimestre de 2018 para efeito de comparação, caso da companhia aérea Azul, que reapresentou o balanço e o resultado líquido passou de um lucro de R$ 238,8 milhões, conforme divulgado anteriormente, para prejuízo de R$ 1,08 bilhão. Neste exemplo, o impacto veio, principalmente, do resultado financeiro, que foi apresentado como lucro de R$ 264,2 milhões e apareceu, após o ajuste, como prejuízo de R$ 1,15 bilhão.


O IFRS 16 prevê que o gasto com arrendamento deixe de ser registrado como custo ou despesa operacional e passe a ser repartido entre depreciação e despesa financeira.


Ainda que os resultados do segundo trimestre tenham sido marcados por questões excepcionais relativas ao lado financeiro, Volpato considera que o saldo final do segundo trimestre pode ser considerado positivo, inclusive no aspecto financeiro. Quando excluídas as dez empresas com maiores ganhos financeiros, além da Petrobras, o lucro líquido no período cresce 23,4% e as despesas financeiras recuam 42,1%.


"O resultado operacional, ainda que tendo crescido com menor intensidade, ajudou a manter as margens operacionais observadas nos trimestres anteriores", afirmou Volpato.


Uma outra maneira de olhar essa melhora é fazer uma radiografia dos lucros. De abril a junho, 57% das empresas analisadas (desta vez considerando Petrobras e Eletrobras, já que se trata de uma contagem) melhoraram o resultado na comparação com o mesmo período de 2018. Desse total, 27% aumentaram o lucro, enquanto 18% voltaram ao resultado positivo depois de prejuízo um ano antes, e 12% diminuíram o prejuízo.


Entre as companhias (43%) que pioraram o resultado, 25% tiveram uma redução do lucro, 9,3% das companhias voltaram ao prejuízo e 8,6% aumentaram o resultado negativo.


Fonte: Valor Econômico

Via Abinee.org.br/

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