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Carta: Faça da tecnologia sua parceira

As parcerias são fundamentais para o sucesso profissional. Quando iniciei meu mestrado em Contabilidade na FEA-USP, tive o privilégio de conhecer pessoalmente o Prof. Sérgio de Iudícibus, que, na época, era chefe de departamento. Talvez pela nossa origem italiana, desenvolvemos uma amizade bastante sólida. Ele foi meu orientador de mestrado e, depois, de doutorado. Além de dar muitas dicas de planejamento para a carreira acadêmica, deu a oportunidade de fazermos o livro Exercício de análise de balanços em coautoria. Na verdade, se tive algum sucesso na minha carreira, devo muito a ele.


Novos parceiros foram surgindo: para livros, artigos, consultoria, pareceres, palestras e, até mesmo, para negócios. Uma dessas parcerias, bastante marcante, foi com o orientado de mestrado na PUC-SP, Ricardo Rios, hoje doutor na área de Educação Contábil, diretor de uma faculdade em São Roque e um empresário bem-sucedido na área contábil. Fizemos em coautoria diversos livros de Contabilidade, cursos,

palestras, artigos etc.


Em virtude de tantas especializações na área contábil (não podemos ser bons em tudo), as parcerias são sempre recomendáveis. Procure buscar os parceiros certos para ser bem-sucedido na sua vida profissional.


Parceria com a tecnologia

Em um ciclo de palestras na PUC-SP, no segundo semestre de 2019, eu e Ricardo Rios dissertamos sobre aspectos relevantes para a carreira do profissional contábil. Abordamos a necessidade de o profissional contábil estar alinhado com a tecnologia, acompanhando tudo o que se tem de mais novo. O mundo passa por grandes transformações, provocadas pelo aumento exponencial da tecnologia. Há muito se sabia que a tecnologia iria causar grande impacto e revolução na história, mas muitos desses avanços ficavam apenas no campo da ficção, como podemos ver em diversos filmes: Matrix, O Homem Bicentenário, A.I. – Inteligência Artificial, entre outros. Ao assistirmos a esses filmes, imaginávamos se um dia talvez pudéssemos chegar próximo a esses cenários retratados.


Possível, sempre é…, mas, ainda assim, parecíamos muito distantes. O cenário foi se modificando de forma acelerada nos últimos anos, especialmente de 2007 até hoje. A indústria da tecnologia avançou muito mais do que antes e começou a produzir tecnologias cada vez mais consumidas por todos nós, a exemplo do surgimento dos smartphones que nos permitem acessar aplicativos para diversas de nossas necessidades, desde jogos, utilidades, ferramentas de trabalho, até meditação e relaxamento. Um mercado muito promissor e que vem crescendo cada vez mais. Hoje em dia, é muito comum vermos crianças já carregando seus tablets e aparelhos por aí.


Contudo, voltando a 2007, de acordo com publicação feita pelo conceituado jornal The Washington Post, retratando o crescimento de dados entre as décadas de 1960 a 2007, fruto de um artigo apresentado por Martin Hilbert e Priscila López, intitulado “The World’s Technological Capacity to Store”, a capacidade computacional cresceu 58% ao ano, as telecomunicações, 28% e o armazenamento de informações, 23% ao ano. O estudo mostra ainda que as telecomunicações estão sendo engolidas pelas tecnologias digitais. Os dados analógicos como papel, filmes, áudios, vinis e vídeos representavam, até 2007, 18,86 bilhões de gigabytes, já os dados digitais como discos rígidos portáteis, mídias digitais, leitores e mídias portáteis, servidores, DVDs/Blu-ray, entre outros, somavam 276,12 bilhões de gigabytes.


O estudo mostra que, em 2011, a humanidade toda tinha a capacidade de armazenamento de 300 exabytes de informação, o que corresponde, em termos comparativos, à quantidade total de informações constantes no DNA de uma pessoa, que, por sua vez, equivale a 80 bibliotecas de Alexandria. E, a cada 18 meses, a quantidade de informação no mundo dobrará.


Vejamos na Figura 3.2 o gráfico ilustrativo do Washington Post.



Em seu livro Você, eu e os robôs, Martha Gabriel nos ajuda a pensar de forma mais clara sobre toda essa avalanche de informações tecnológicas, apresentando um quadro do que não existia em 2006:

O que poderá acontecer nos próximos 14 anos?

Nossa proposta agora é tentar pensar o que teremos daqui a 14 anos. Como serão as tecnologias? Que avanços teremos e como eles poderão interferir em nossa existência? Enfim, são perguntas sem respostas ainda. Enquanto isso, vamos a mais alguns dados sobre o consumo da tecnologia no mundo atual. O site Visual Capitalist publica anualmente um infográfico demonstrando o que acontece em um minuto na internet. Vejamos os dados do ano de 2019 na Figura 3.3.



Nesse infográfico, podemos ver com clareza o grande volume de informações em apenas um minuto na internet. Como exemplo, mencionamos a Netflix, maior provedora global de filmes e séries de televisão via streaming. Em 2019 foram assistidas 694.444 horas por minuto. Já o Messenger e o WhatsApp foram responsáveis pelo envio de 41,6 milhões de mensagens por minuto. E assim por diante nos mais diversos tipos de mídia existentes.


Outro aspecto bastante importante de toda essa revolução digital é o crescimento da inteligência artificial. Ao contrário da lógica matemática, que deu origem aos computadores, a IA é totalmente orientada para a fisiologia humana, ou seja, tenta reproduzir não somente um comportamento inteligente, mas o próprio funcionamento do cérebro humano. Seu surgimento e sua evolução estão mudando o mundo. Surgem novos desafios da ciência como os robôs, as impressoras 3D que são capazes de imprimir peças e componentes e até mesmo órgãos humanos. Uma nova revolução que está sendo chamada de Indústria 4.0. Mas, afinal, o que é a Indústria 4.0?


A Indústria 4.0 está baseada em alguns conceitos como internet nas nuvens (cloud), big data, mobilidade, segurança e internet das coisas (IOT). Em resumo, pode-se dizer que cloud é o armazenamento de informações feito em nuvens (grandes servidores mundiais) que podem ser acessadas pelos seus usuários de qualquer lugar do planeta. Big data são grandes bancos de dados de informações, alimentados pelo nosso uso diário da tecnologia, são os chamados “rastros digitais” que podem ser minerados por grandes empresas para uso comercial.


Mobilidade está apoiada no conceito do uso de forma móvel, ou seja, em qualquer lugar. Segurança está relacionada à proteção dos dados e informações pessoais e empresariais. E internet das coisas significa que objetos se comunicam entre si e com o usuário por meio de sensores e softwares em uma rede. Tudo isso está transformando os negócios e, consequentemente, a geração de empregos e a forma como nos preparamos para o mercado.


A IBM lançou uma plataforma cognitiva chamada Watson, baseada na inteligência artificial e que está 100% focada em negócios. Ela já é utilizada para várias áreas como Medicina e Direito. Na área do Direito, os robôs já produzem petições para auxiliar pessoas que não podem pagar por defesa. O índice de sucesso é altíssimo.


No Vale do Silício, já existe uma pizzaria cujas pizzas são feitas e entregues 100% por robôs, a Zume Pizza. Enfim, são muitos os avanços que impactam e impactarão ainda mais as profissões, mas e a Contabilidade? Será que sofrerá impactos? Será que acabará? Evidentemente, como todas as outras áreas, a Contabilidade vem passando por um profundo processo de transformação, ainda que mais lento que em outros seguimentos, mas já bastante evidente. São diversas as aplicações voltadas para o segmento contábil, os softwares já incorporam uma gama de novas ferramentas totalmente voltadas à simplificação do trabalho e eliminação de processos redundantes.


Em muitos deles, é possível até mesmo criar um menu interativo, em que o usuário cria um roteiro com aquilo que faz passo a passo todos os meses. Uma vez criado, no mês seguinte, basta utilizá-lo em ordem sequencial. Dessa forma, o software ajuda a organizar e agilizar a rotina de trabalho mensal.


Outro ponto de destaque é o trabalho em múltiplas telas, algo impensado há anos e que facilita muito o dia a dia do profissional, podendo “navegar” pelo sistema de forma rápida e eficaz.


Tecnologia na Contabilidade

Contudo, esses avanços ferramentais de sistema ainda não significam nada perto de onde a tecnologia já está levando a Contabilidade. Já existem diversos estudos e softwares de otimização dos processos contábeis. Tudo aquilo que for repetitivo, ou seja, que se faz igual todos os meses, os robôs são capazes de reproduzir, bastando apenas que sejam programados para isso.


Processos que levavam dias para serem feitos por seres humanos, agora, são feitos em poucas horas pelos robôs. Muitos desses programas já estão em plena atuação, citando alguns exemplos: robô que acessa sozinho o site da receita federal e pesquisa a certidão negativa da carteira toda de clientes de uma organização contábil em poucas horas. Se algum problema for detectado, um e-mail é enviado ao contador e ao cliente. Atualmente, essa rotina é feita de forma mensal ou trimestral por organizações contábeis e um funcionário leva dias para checar todos os clientes.


Outro exemplo ilustrativo, robô emissor automático de notas fiscais. Ele acessa a base de dados da prefeitura onde o contribuinte está estabelecido e, com as informações em planilhas feitas uma única vez, preenche mensalmente as notas fiscais. O processo leva em média 20 segundos por nota fiscal, um tempo muito inferior ao realizado pelo funcionário responsável. Esses são pequenos exemplos do uso da tecnologia para a simplificação e a otimização do processo operacional, mas os avanços são ainda maiores.


Já estão em testes os chamados chatbots, robôs que têm capacidade de conversar com nossos clientes. As conversas com solicitações e dúvidas são armazenadas e vão formando um grande banco de dados. Respondidas por humanos, em um primeiro momento, vão indicando ao software como responder à mesma pergunta da próxima vez. Dessa forma, à medida que o tempo vai passando, é possível que a máquina interaja sozinha com o cliente. Parece assustador em um primeiro momento, mas, na verdade, não temos como fugir mais dessa realidade. Então, o conselho que fica é nos adaptarmos a ela.


Além de facilitar nossa vida, as tecnologias podem levar a uma mudança profunda de perfil do profissional da Contabilidade. Os trabalhos repetitivos serão feitos por robôs, a profissão será dimensionada para algo mais consultivo. Os esforços do profissional da Contabilidade devem estar voltados para o uso da ciência na resolução dos problemas cotidianos empresariais. Deveremos nos tornar verdadeiros parceiros de negócios dos nossos clientes, ajudando-os a buscar mais eficácia, segurança e consequentemente resultados melhores.


Em recente pesquisa realizada pela Robert Half, empresa global de consultoria de recursos humanos, foram apontadas as características necessárias para o perfil desejado pelo mercado de trabalho da Contabilidade. O que chama a atenção é que, além dos conhecimentos técnicos – que todos devemos possuir –, são mencionadas habilidades como: boa comunicação, domínio de no mínimo dois idiomas – preferencialmente inglês e espanhol –, versatilidade, conhecimentos em tecnologia, saber trabalhar em equipe, habilidades em negociação, proatividade, interesse, espírito colaborativo e comportamento adequado e condizente com a empresa em que trabalha.


Pode-se verificar que o mercado procura algo além de um profissional que tenha apenas bons conhecimentos em Contabilidade, a busca é por um profissional mais eclético, com habilidades diversas e que tenha flexibilidade para adaptar-se a diversos cenários. Retomando e respondendo às questões sobre a Contabilidade, ela sofrerá impactos causados pela tecnologia? A reposta é que ela já está sofrendo e ainda terá que se adaptar em novos outros cenários. A Contabilidade vai acabar? A resposta é não. Sempre precisaremos da Ciência Contábil, o que mudará é a forma como nós, profissionais da Contabilidade, a utilizaremos, não mais como mero instrumento de operações repetitivas para servir a poucos usuários, como o fisco, mas como instrumento de gestão e transformação.


Caberá aos profissionais da Contabilidade uma mudança de atitude, encarando a tecnologia como parceira para facilitar sua vida e a dos negócios, poupando-o de trabalhos operacionais rotineiros, proporcionando mais tempo para o desenvolvimento de suas habilidades de inteligência e conhecimento.


JOSÉ CARLOS MARION

É mestre, doutor e livre-docente em Contabilidade pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/ USP). É professor e pesquisador do Mestrado em Contabilidade na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Dentre os 29 livros publicados na área contábil, é autor de Contabilidade rural, Contabilidade empresarial e Contabilidade básica e coautor de Curso de contabilidade para não contadores, Contabilidade avançada, Introdução à teoria da contabilidade, Contabilidade comercial, Administração de custos na agropecuária, Manual de contabilidade para pequenas e médias empresas, Contabilidade geral para concurso público, Contabilidade da pecuária e Normas e práticas contábeis, publicados pelo GEN | Atlas.


Fonte: Gennegociosegestao.com.br/