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Afinal, por que a bolsa cai tanto? E para onde vai o dinheiro que a derruba?

Tombo atrás de tombo. As últimas semanas não têm sido fáceis para o mundo e os mercados financeiros refletem esse sentimento. As bolsas despencam dia sim, dia não, porque os investidores procuram vender ações mais do que comprar, com medo que as empresas percam valor em meio ao coronavírus. Com a pandemia, as expectativas de crescimento diminuem para elas e para os países.


O curioso é que quem está indo na onda do pânico global, vendendo mais do que comprando e derrubando a bolsa brasileira não são os pequenos investidores, mas justamente os grandes, mais experientes.


Desde a quarta-feira de Cinzas, quando as ações brasileiras começaram a despencar de vez, o Ibovespa acumula uma queda de 37,4% no período, saindo de 113.661 pontos para 71.168 no último pregão.


Mas mesmo com a queda, entre 26 de fevereiro e 12 de março, último dado da B3 disponível, os investidores pessoas físicas compraram o equivalente a R$ 69,99 bilhões em ações, e venderam R$ 57,99 bilhões. Saldo líquido, positivo, de R$ 12 bilhões.


Já os estrangeiros intensificaram a saída da bolsa brasileira. Compraram R$ 189,58 bilhões em ações, e venderam R$ 210,952 bilhões. Saldo líquido, negativo, de R$ 20,94 bilhões.


Gestores de fundo também têm ido às compras ao lado das pessoas físicas, mas de forma mais moderada. O saldo das operações feitas por investidores institucionais ficou negativo em “apenas” R$ 6,67 bilhões, fruto de R$ 141,79 bilhões em compras, R$ 136,12 bilhões em vendas.


Fluxo de investimentos


Na B3 entre 26 de fevereiro e 12 de março - em R$ bilhões

Para o chefe de análises da Toro Investimentos, Rafael Panonko, o que ocorre é uma diferença muito grande entre os perfis de investidores institucionais e pessoa física. Enquanto o primeiro é mais imediatista e pensa a curto prazo, o segundo deve pensar a longo prazo para aumentar o patrimônio de modo coordenado, sem necessidade de retornos instantâneos.


“O investidor institucional estrangeiro em qualquer sinal de fumaça não espera ver o fogo, ele sai do mercado emergente e vai para ativos de segurança, aloca em ouro, em dólar”, avalia o analista. “Não é uma questão de informação, mas de perfil de um tipo de investidor para o outro. Hoje a informação está mais democrática e as pessoas físicas têm acesso também a muito mais assessoria”.


No casos dos investidores institucionais brasileiros, gestores de fundos, por exemplo, a retirada tem dois motivos principais. O primeiro é a redução de danos. Como as expectativas de crescimento do PIB brasileiro estavam otimistas, alguns gestores fizeram a aposta de ficarem alavancados. Agora, eles vendem ações para sair de uma posição de maior risco de perdas.


Alavancagem é quase como pedir um empréstimo para fazer uma aposta. Pode dar muito certo ou gerar prejuízos enormes. No caso dos fundos, os cotistas (pessoas que investem nesses produtos) também pagam o pato se a coisa der errado.


Com o agravamento da pandemia de coronavírus, as projeções para crescimento não só da economia brasileira, mas de todo o mundo foram sendo revisadas para baixo. O pessimismo começou a tomar conta do mercado. Somado a isso, houve ainda o impasse entre sauditas e russos que derrubou o preço do petróleo e afundou ainda mais as bolsas.


“No ano passado, tínhamos um crescimento do Brasil se acelerando, com PIB que cresceu 1,1% em 2019. Para 2020, a previsão era de alta de 2,3%. Era uma curva atrativa, você tinha investidores institucionais se alavancando. Agora o que ocorre é um ajuste de posição para sair da volatilidade que incomoda os cotistas”, aponta o especialista da Toro.

O analista da Clear Corretora Rafael Ribeiro destaca que há fundos de investimento menores que estão em pânico porque alguns têm travas automáticas para evitar perdas drásticas, é o chamado “stop loss”.


Esses fundos não podem perder mais do que um determinado valor por dia ou por mês. Assim ficam sem escolha se não a de vender, mesmo que a melhor opção seja segurar a posição de compra. “Esses investidores estão em pânico de ver o portfólio caindo muito e precisam zerar suas posições”, explica Ribeiro.


O segundo motivo para saída de grandes investidores institucionais é que se um cotista de fundo pede um resgate, o gestor deve entregar o capital de volta. Isso o força a vender ações, se for o caso de um fundo que tenha esse ativo, mesmo que o momento não seja o ideal. Entenda aqui se o seu fundo pode fechar para resgates, na coluna de Marcelo d'Agosto.


“O que ocorre é que toda vez que vemos pânico no mercado, os gestores têm que fazer frente aos resgates”, pontua o economista da Órama, Alexandre Espirito Santo.


Para o especialista, o mercado está agindo com irracionalidade e se deixando tomar pela histeria, fazendo vendas a preços muito baixos e desprezando os fundamentos que deveriam reger as operações de investimentos.


“Muitos investidores estão batendo em retirada porque temem que o que vai acontecer daqui pra frente coloque a economia mundial em recessão. Vemos nos mercados hoje cada dia pior que o outro como se não houvesse amanhã, como se essa nova doença fosse dizimar a humanidade. Não acho que seja isso”, diz.


Destino do dinheiro

Só de acompanhar as cotações de alguns ativos já dá para ter uma pista de para onde o volume dos grandes investidores está indo. Os gráficos não mentem e a lei de oferta e procura não costuma falhar. Ouro e dólar subiram (e muito). O tesouro dos Estados Unidos está com procura altíssima.


Logo, a conclusão de especialistas é de que o dinheiro de grandes investidores está saindo da bolsa para ir para ouro e dólar, considerados ativos muito seguros em tempos de tantas incertezas, mas também para os Estados Unidos.


“Lá fora, os papéis também caíram muito forte, mas os investidores conhecem melhor os EUA do que países emergentes e, no mercado americano, as ações também estão baratas. Os investidores preferem comprar em mercados que conhecem melhor e com mais liquidez. Não querem estar expostos ao Brasil”, diz Ribeiro, da Clear.


O professor de economia internacional do Ibmec-SP, Roberto Dumas, pondera que o investidor estrangeiro não está saindo só do Brasil, mas de todos os lugares. “Em um cenário de estresse mundial, o Brasil não é porto seguro, mas nenhum país é muito porto seguro. O investidor vai para onde acha menos arriscado, para países com economias mais fortes”, diz.


Para grandes investidores voltarem às compras na B3, tanto estrangeiros como brasileiros, a volatilidade precisa diminuir. “Um ambiente muito volátil assusta qualquer investidor independente do tipo. Só não assusta tanto quem investe pensando muito no longo prazo”, diz Ribeiro, da Clear. “As quedas são muito bruscas, mas as altas são lentas.”


Espirito Santo, da Órama avalia que quando passar a sangria, o grande investidor deve voltar. Mas para tornar o Brasil mais atrativo, ele defende que sejam levadas adiante as reformas estruturais, como administrativa e tributária, conforme promessas do atual governo.


“Quando cair a ficha de que não é o fim do mundo e devagarinho a racionalidade voltar, eles vão precisar separar o joio do trigo e para o país poder se diferenciar nesse mar turbulento deve resolver a questão das reformas”, argumenta.


Segundo ele, com o juro zero de novo no mundo, em algum momento, os investidores vão procurar onde colocar seu dinheiro. “O Ibovespa em dólar está no preço da crise de 2008. Se pegar o múltiplo preço/lucro ,que três semanas atrás estava em 14 vezes, hoje está a metade disso”, avalia.


Como funciona a queda da bolsa?


O volume financeiro, que mede a quantidade de dinheiro que entra e sai em negociação, tem apresentado tendência de alta, mesmo diante do caos. Os dias de “circuit breaker”, parada da bolsa quando o Ibovespa cai mais de 10%, tiveram movimentos um pouco menores.


Mas o que importa não é o volume total, mas sim qual o tamanho da força vendedora e o da compradora. É isso que determina se a bolsa fica no positivo ou no negativo. Se houver alto volume, com um movimento muito mais vendedor, como ocorreu agora, veremos a bolsa cair forte.


B3 - Segmento Bovespa

Volume financeiro diário, em R$ bilhões

E a jornada de queda é bem diferente daquela de alta, não só em velocidade, mas também em quantidade de dinheiro investido. Vai ser preciso que o volume se mantenha alto para a bolsa se recuperar do tombo.


Panonko, da Toro Investimentos, explica que diferentemente do movimento de subida, que exige muitos compradores e ofertas, com grande giro de capital, a queda funciona de um jeito diferente.


“Pra cair não precisa de um grande volume de negociações. Pra cair basta ter ausência de compradores. Assim, qualquer venda já empurra o mercado para baixo. ‘Circuit breaker’ causa um pessimismo. Meia hora reduz volume, mas também gera um comportamento de aguardar. Quem ia comprar um valor, às vezes, parcela a compra e espera o mercado passar um pouco a volatilidade para aplicar o restante”, avalia.


Segundo ele, a recomendação da Toro Investimentos é justamente não comprar tudo de uma vez só, nem num mesmo dia. Em momentos de alta volatilidade como vemos agora, o ideal é fazer compras fracionadas e mitigar os riscos.


Se a bolsa caiu hoje, nada garante que amanhã não cairá mais. Portanto, dividir as aplicações acaba deixando o investidor com uma média mais equilibrada de ganhos e perdas.


“Temos orientado cautela, paciência. Está barato comprar ações, mas a recomendação não é ir às compras. Os impactos na economia mundial e Brasil ainda são incertos. Pra quem está comprado não vale a pena se desfazer agora”, completa Panonko. Ele também defende que a calma é aliado do investidor pessoa física, que pode ver todas as perdas acumuladas até agora recuperadas num curto prazo.


Por Júlia Lewgoy e Isabel Filgueiras, Valor Investe — São Paulo


Fonte: Valorinveste

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