Buscar

5 dicas do empreendedor que faliu seis vezes e hoje fatura R$ 50 milhões por ano

Da mãe, o empreendedor Geraldo Rufino recebeu o nome e os valores. Em uma casa de pau a pique em Campos Altos, interior de Minas Gerais, aprendeu a valorizar os nados no riacho, a natureza e a presença dos pais. Com quatro anos, após perder toda a lavoura e se mudar para uma periferia da Zona Oeste de São Paulo, agradecia o sol que entrava pelas frestas de seu barraco e as novas amizades. O chão batido, tanto em Minas quanto em São Paulo, nunca foi considerado um problema.


Na realidade, foi a base para a construção da sua personalidade. “Minha mãe sempre dizia que morar em um barraco e ser pobre não eram problemas. Que eu podia mudar tudo isso se quisesse”, diz Rufino, fundador da empresa JR Diesel. A sabedoria materna nunca deixou seu cotidiano. Com sete anos, já tinha adquirido o costume de acordar e agradecer pelo dia, e isso não mudou quando sua mãe saiu de cena.


Poucos meses depois, Dona Geralda faleceu precocemente. “Mas meu caráter já estava formado. De lá para cá, fui uma criança blindada, nunca dei o direito a nada nem ninguém me incomodar”, revela. Era como se sua mãe acompanhasse seu crescimento por meio dos valores que tinha passado. “Ela me guiou pela vida. Tudo que acontecia comigo eu ia ligando com a visão de mundo que ela deixou.”


Com uma tutora eterna, entregou-se ao mundo – segundo ele, responsável por ter completado sua educação. Começou a trabalhar com 11 anos, recolhendo latinhas e ajudando o pai no sustento da casa. Com 13, ingressou no Grupo Playcenter, de parque de diversões, onde revela ter aprendido educação financeira e vivido o empreendedorismo em sua forma mais pura. “Eu trabalhava como se a empresa fosse minha.”


Como um homem de negócios, foi de chefe de carrinho de pipoca a diretor da Playland, uma das principais empresas de entretenimento infantil do país. “Eu vendia muita pipoca, sentia prazer naquilo. Polia o carrinho, limpava, fazia os pipoqueiros usarem gravata borboleta…”, relembra. Assim, foi criando oportunidades e crescendo na companhia. “Você tem que ser empreendedor no seu trabalho. Toque aquilo como se fosse seu, empreenda para você.”


Rufino trabalhou no grupo dos 13 aos 30 anos, e, durante esse período, conquistou casa própria, carros e uma frota de caminhões. Tudo começou com uma paixão pelos antigos fuscas, que evoluiu para a necessidade de adquirir uma kombi para seu irmão. De repente, os pequenos caminhões entraram nos planos e se multiplicaram rapidamente para uma dúzia, constituindo uma frota lucrativa.


JR Diesel: um acidente de percurso


A história de Rufino parece, às vezes, um passe de mágica, mas está longe disso. A prova é que, após alguns meses de lucro com os caminhões, um “belo dia”, como ele mesmo diz, os veículos se envolveram em um acidente. “Eu digo ‘belo dia’ porque Deus não sacaneia”. Para pagar as dívidas que tinha feito para tocar o negócio, decidiu desmontar os caminhões avariados e vender as peças. Ao seguir sua intuição para resolver o problema, criou a JR Diesel.


“Não fui visionário, foi um acidente de percurso”, conta. A empresa foi aberta em 1985, e Rufino continuou fazendo jornada dupla, já que ainda trabalhava no Playcenter, até 1999, quando pôde tocar seu próprio negócio definitivamente. “Eu recolhia latinha e, hoje, tenho a maior empresa de peças seminovas da América Latina. Só mudou o tamanho da lata”, diz, rindo. Para ele, há uma lição essencial a ser tirada desse episódio: a importância que as crises e os problemas têm nas nossas vidas.


“Pode parecer estranho, mas os problemas são necessários. É uma oportunidade de evoluir.” Segundo o empreendedor, quando você nasce, passa a ser um gerador de problemas, e, quando morre, os transfere para os próximos. É algo inato e, como tal, movimenta a vida, a economia e até os negócios.


Sua trajetória na JR Diesel é uma prova de que esse ponto de vista não está errado. Após abrir a empresa, Rufino já “faliu” cinco vezes. “Na verdade, eu fiquei sem dinheiro. E dinheiro é o menor dos valores”, diz. Mas a realidade é que ele quebrou e sempre conseguiu se reerguer. Hoje, seu negócio fatura R$ 50 milhões por ano.


Rufino diz ter evoluído com cada uma das falências, seja como empreendedor, seja como ser humano. E, ao que tudo indica, as pessoas a sua volta percebem isso. Acostumado a dar dicas e conselhos, mudou a dinâmica da empresa, que passou a receber filas de funcionários nos corredores em busca de suas palavras motivadoras. Sabendo que não poderia atender todo mundo, recorreu à tecnologia e criou um blog e uma página oficial nas redes sociais. Foi questão de tempo para que começasse a ser chamado para palestras e mentorias ao redor do país.


“Na primeira palestra eu perguntei se iam me pagar”, lembra. E, surpreso, descobriu que sim. Rufino já escreveu dois livros e contabilizou 300 palestras em 2019. Sua agenda está repleta de compromissos do tipo até 2021. Mais do que sua experiência no mundo empreendedor, ele fala sobre sua visão da vida – aquela mesma que foi herdada da mãe. “A minha infância nunca acabou. Eu nunca perdi meus valores, meu controle emocional, minha alegria. Eu ainda tenho sete anos.”


No auge das crises, Rufino revela ter focado no fato de que “nossos patrimônios são menores do que nós”. Para ele, se um indivíduo é capaz de criar, gerar ou lucrar com alguma coisa, ele consegue fazer isso mais de uma vez. Além do mais, assume a culpa por todos as situações em que ficou sem dinheiro, dizendo ser o único responsável e causador de seus sucessos e fracassos.


Ele brinca sobre uma sexta vez em que faliu – a única que não foi sua culpa: “Quando eu pegava latinhas, enterrava meu dinheiro para recolher depois do trabalho. Um dia passaram cortando a grama e levaram tudo… Foi minha primeira falência”.


Para aqueles que estão com problemas mais sérios do que os causados por uma máquina de cortar grama em seus negócios, o empresário tem algumas dicas. Veja, na galeria abaixo, 5 passos de Geraldo Rufino para sobreviver à falência e garantir o sucesso:


1- Assuma a responsabilidade e reconheça seus erros


Segundo o empreendedor, a primeira coisa a se fazer quando não há mais dinheiro para pagar as contas é reconhecer os próprios erros. Terceirizar a culpa é adiar seu retorno para o mercado e correr o risco de falhar novamente da mesma forma. “Todas as vezes que eu fiquei sem dinheiro foi por um motivo diferente. Em todas eu aprendi com meus erros”, revela.


Ele compara a situação com uma doença: você só trata o que sabe que tem. Dessa forma, é preciso aceitar seus defeitos para poder consertá-los. “Quando você olha para o retrovisor e vê sua trajetória, consegue ver muitas falhas. Não há manipulação, você se deixou manipular. Assuma seu erro. Leve como aprendizado e experiência, assim você não o repetirá.”


Em seu caso, Rufino conta ter falhado por atitudes como vaidade, prepotência e arrogância. “Achar que precisa de mais do que já tem, acreditar que você é ‘o cara’, não ouvir as pessoas a sua volta…tudo isso é culpa sua”, ressalta. Porém, a situação pode ser uma ótima oportunidade para rever suas ações. “Junto com seus defeitos, também estão a espiritualidade, a fé, a generosidade, a esperança e a humildade. Assuma que o problema é seu e comece de novo.”


2- Tenha credibilidade e nunca fuja de ninguém


Sem dinheiro para pagar as contas, as dívidas começam a aparecer, e com elas, os cobradores. Para Rufino, é essencial que você crie um senso de segurança nessas pessoas. Elas precisam acreditar que você está correndo atrás do prejuízo e que vai pagar o que deve.


Para isso, é preciso ter credibilidade. As pessoas precisam saber que você não “sacaneou” ninguém, como diz o empresário, apenas está passando por um momento difícil, que vai passar. “A credibilidade é o que dá espaço para recomeçar.”


Para isso, é preciso que você mesmo acredite que é capaz de se reerguer. “Seja o primeiro a aparecer na empresa. Não fique em casa, trabalhe ainda mais do que antes…10, 12 horas por dia. Queira de verdade”, diz. Ele conta que em seus momentos de crise, aparecia na empresa muito cedo. Quando um cobrador chegava, achando que Rufino só estaria lá mais tarde, era recepcionado pelo próprio, que o recebia, oferecia café e conversava. “Eles iam embora sabendo que, um dia, eu ia pagar.”


No primeiro momento, você lida com instituições que não acreditam em você, mas, com tempo e dedicação, é possível transmitir a mensagem da sua busca pela recuperação. “Tempos depois, esses mesmos cobradores até me ajudaram. Eles continuavam fazendo negócios comigo e isso fez com que eu me levantasse.” Ou seja: não fuja de seus problemas. “Eu nunca fugi de ninguém, nem de oficial de justiça”, revela.


3 – Construa um time forte


Em sintonia com a dica anterior está a manutenção de um time forte, capaz de ajudar em muitas coisas, inclusive na credibilidade e boa imagem no mercado. “Quando alguém vem cobrá-lo e percebe que quem o atende está sorrindo e trabalha na empresa há 20 anos, a situação muda de perspectiva”, diz Rufino.


Por isso, tenha uma equipe forte, unida e consistente. “A maioria dos meus funcionários tem mais de 10 anos aqui.” Isso acontece porque os profissionais se sentem acolhidos. “Minha empresa é a extensão da minha família. Eu dou oportunidade para que as pessoas cresçam e empreendam para eles mesmos, assim como fiz na minha vida.”


Essa relação benéfica entre equipe e liderança pode ser construída por meio de atitudes muito simples. O empreendedor conta que sua principal ferramenta é o “botãozinho do bom dia”. “Na primeira hora do dia já faço algo para motivar todo mundo. Esse é o melhor combustível que tem: reconhecimento.” Assim, ele cria uma equipe estável, confiante na organização. “Quando se tem um bom time, fica fácil conquistar o mercado.”


4- Faça uma lista de prioridades


Quais são os itens básicos para o funcionamento da sua empresa? Essa é uma pergunta que todo empreendedor deve se fazer. Tudo parece importante – salários, materiais, contas básicas. Mas é preciso fazer uma lista real de prioridades, pagar primeiro o que faz sua empresa abrir todos os dias.


Para Rufino, por exemplo, o mais importante era a luz. “Esperávamos até o último dia de vencer a conta, que é quando cortam. Os funcionários que vinham interromper o serviço nos conheciam e ficavam esperando o pagamento para não ter que nos deixar no escuro. Eles torciam pela gente.” Em seguida, vinha o telefone. “Eu tinha 10 linhas e ia pagando aos poucos, uma por vez.” Depois vinha a água e, em seguida, a matéria-prima.


Depois disso, a prioridade era o pagamento dos salários. “Se eu usasse o dinheiro que tinha na folha, não teria luz e, consequentemente, a empresa nem abriria. Se ela fechasse, não adiantaria eles nem irem trabalhar. E como eles fariam para sustentar suas famílias depois de um mês?”, pergunta. Por isso, diz ele, é preciso ter foco no fortalecimento da empresa, para que ela se recupere e continue gerando empregos.


Além disso, diz ele, até os pagamentos dos salários tinham uma ordem. “Tem os que ganham dois salários e os que ganham 15. Então eu ia pagando proporcionalmente. Quem mais se aperta? Quem ganha menos. Esse trabalha para comer, não pode ficar sem dinheiro. O que ganha mais espera, ele tem uma estrutura.”


5- Não se veja como uma prioridade


“Eu não sou prioridade”, diz Rufino. Segundo ele, é preciso colocar isso na cabeça e esquecer a vaidade. “Ela é igual veneno de cobra, só é boa se usada na medida”, compara.


Sendo assim, esqueça os carros de luxo, os produtos supérfluos e o status. “Você tinha um carro da última geração, agora não pode ter. Pede carona uns dias, ande de transporte público e sinta o que você provocou”, diz. Isso ajuda a não repetir os mesmos erros. “E essa é a chave do empreendedorismo: errar e aprender.”


“O empreendedor precisa caminhar, mas não conhece o caminho. Ele dá o primeiro passo devagar, então começa a andar mais rápido e aí pode encontrar um degrau solto e cair”, diz. Porém, a lição que ele aprende é o que define se será capaz de se reerguer e encontrar sucesso ou não.


Fonte: Forbes

© 2020 - Contador SC.